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Folclore da casa de banho: os espíritos da banya, da sauna e do hammam e as regras que eles deixaram

O bannik da banya russa, o saunatonttu da sauna finlandesa, os gênios do hammam, o akaname japonês, a avó dos banhos do temazcal e as maldições de Bath: o que cada tradição acreditava e o que sobrou disso na etiqueta de hoje.

Banho social 9 min de leitura

Três saunatonttu de madeira entalhada com barbas de pelo numa prateleira de madeira; o do meio, de gorro pontudo e nariz redondo, segura um cajado

Em quase toda tradição de banho coletivo, a casa de banho ficava um pouco fora do mundo comum. Ali as pessoas tiravam a roupa e os objetos de valor, fogo e água dividiam a mesma sala, nascia-se e lavava-se o morto antes do enterro. Muitas dessas casas ganharam donos invisíveis: o bannik na banya, o saunatonttu na sauna, gênios no hammam, uma deusa na porta do temazcal.

Este guia percorre seis tradições, com a fonte de cada crença, e mostra o que delas reaparece nas regras que as casas de banho publicam hoje. Ir acompanhado, falar baixo, deixar a sala limpa e guardar os pertences já estavam nessas histórias, com outro nome.

Banya: o bannik e o quarto vapor

Na Rússia rural, a banya era uma cabana de toras afastada da casa, muitas vezes do tipo “preto”: sem chaminé, com a fumaça saindo pela porta e as paredes cobertas de fuligem. A folclorista Masha Vadeysha reuniu o que as fontes etnográficas dos séculos XIX e XX registram sobre ela num artigo de 2005 na revista Folklorica.

A banya servia ao banho de sábado e também aos momentos que mudam uma vida. A mulher ia para lá depois do parto, a noiva tomava banho na véspera do casamento e quem voltava de um enterro ia “lavar o luto”. Ao mesmo tempo, era tida como lugar perigoso. Ícones nunca eram pendurados ali, e ao entrar era preciso tirar o cinto e a cruz, coisa que não se fazia em nenhum outro lugar.

O dono da banya era o bannik (ou baennik). As regras que o artigo reúne giram em torno dele:

  • Ninguém se banha sozinho. Um relato citado diz que quem vai sozinho à banya pode ser despedaçado pelos demônios, e por isso o banho de sábado era em grupos de duas pessoas ou mais.
  • O quarto vapor é dele. Na maior parte das regiões, depois que três grupos se banharam, ninguém mais entra. A quarta rodada fica para o bannik, com água quente e um feixe de ramos (o venik) deixados para ele.
  • Silêncio. Nada de barulho, de falar alto, de apressar os outros, de xingar ou de rogar praga.
  • Pedir licença e agradecer. Na entrada se dizia uma fórmula como “dono da banya, deixa eu entrar para tomar vapor”. Na saída, agradecia-se o vapor.
  • Nada à meia-noite. O horário certo era a tarde, perto do anoitecer. Meia-noite era hora de magia, e nas noites antes do Natal, do Ano-Novo e da Epifania a banya virava lugar de adivinhação.

Quem desobedecia arriscava a fúria do bannik, descrito num dos relatos como um espírito de braços de ferro. O historiador W. F. Ryan usou a cena no título do seu levantamento sobre magia e adivinhação na Rússia, The Bathhouse at Midnight (1999).

Sauna finlandesa: o saunatonttu e o löyly

A cultura da sauna finlandesa entrou na lista de patrimônio imaterial da UNESCO em 2020. A ficha descreve a sauna como um espaço tradicionalmente sagrado e define o löyly como o espírito, ou vapor, que sobe quando a água cai nas pedras quentes.

O inventário de patrimônio vivo da Agência do Patrimônio da Finlândia registra que toda sauna tinha, segundo a crença, um espírito protetor, um elfo ou guardião, e que era de bom tom cumprimentá-lo ao entrar. Na tradição popular ele se chama saunatonttu, o elfo da sauna (também saunan haltija), e cuida também de como as pessoas se comportam lá dentro.

O mesmo inventário lista usos que a banya também tinha: dar à luz, cuidar de doentes e preparar o morto para o enterro. Acreditava-se que o parto ficava mais fácil se a sauna fosse aquecida com lenha de uma árvore atingida por raio. No Natal, ficava-se em silêncio na sauna para não pegar piolho no ano seguinte.

Os finlandeses resumem a conduta num ditado: na sauna, porte-se como na igreja (saunassa ollaan kuin kirkossa). A diferença para a Rússia aparece logo na porta. O inventário finlandês diz que se oferecia uma bênção ao entrar, enquanto na banya a cruz ficava do lado de fora.

Hammam: os gênios do banho

O inglês Edward William Lane morou no Cairo nos anos 1830 e descreveu o banho público da cidade em An Account of the Manners and Customs of the Modern Egyptians (1836), hoje em domínio público no Projeto Gutenberg. Segundo ele, acreditava-se que o banho era um dos lugares preferidos dos gênios (jinn). Quem ia entrar devia fazer uma oração curta pedindo proteção contra os maus espíritos e passar a soleira com o pé esquerdo primeiro. Pelo mesmo motivo, não se rezava nem se recitava o Corão lá dentro.

Na frase seguinte, Lane passa do invisível ao prático. Quem levava relógio ou uma bolsa com mais que uns trocados entregava tudo ao mestre do banho, que guardava num baú trancado. A mesma visita cuidava dos gênios e dos ladrões.

Como funciona um hammam hoje está em Hammam: o que é, como funciona o banho e de onde vem.

Onsen e sento: a garça, os deuses e o akaname

Dogo Onsen, em Matsuyama, se apresenta como a fonte termal mais antiga do Japão, e o site oficial conta duas histórias de origem. Na primeira, uma garça com a perna ferida a banhava todos os dias na fonte até sarar, e quem viu passou a se banhar ali também. Na segunda, registrada no Iyo no Kuni Fudoki, o deus Sukunahikona adoeceu numa visita à região. O deus Ōkuninushi o banhou na fonte, e Sukunahikona sarou e dançou sobre uma pedra para provar. A pedra, Tama-no-ishi, fica no lado norte do prédio principal, o Honkan.

Os banhos japoneses têm também uma criatura menor e menos solene. O akaname, “lambedor de sujeira”, é um yōkai que aparece à noite para lamber a gordura e o limo acumulados nas tinas e nas paredes. O nome surge no bestiário ilustrado Gazu Hyakki Yagyō, de Toriyama Sekien, de 1776. Um livro de 1686 já descrevia uma criatura parecida, o akaneburi, que nascia da sujeira das casas de banho velhas. Na prática, a história lembrava a todos de limpar o banho.

Ilustração em preto e branco de uma criatura de língua comprida espiando pelo canto de uma casa de banho de madeira, com toalhas num varal e dois baldes no chão

O akaname espia uma casa de banho no Gazu Hyakki Yagyō, de 1776. Ilustração: Toriyama Sekien, domínio público, via Wikimedia Commons.

A regra de hoje é a mesma ideia sem o monstro: no onsen, a organização nacional de turismo do Japão orienta lavar o corpo inteiro antes de entrar na água que todos dividem.

Temazcal: a avó dos banhos

No México antigo, o banho de vapor tinha deusa própria. No Livro 1 do Códice Florentino, frei Bernardino de Sahagún registra que os donos de temazcal (do náuatle temāzcalli, banho de vapor) rezavam a Toci, deusa da medicina venerada por curandeiros e parteiras, e punham a imagem dela na frente do banho. Chamavam-na Temazcalteci, “avó dos banhos”.

Como a banya e a sauna, o temazcal servia ao parto e ao pós-parto, além da higiene e do cuidado com a saúde. A tradição continua viva no México, e o ritual de hoje está explicado em Temazcal: qué es, para qué sirve, beneficios y riesgos, em espanhol.

Termas romanas: as maldições de Bath

Em Bath, na Inglaterra, a fonte quente era o santuário da deusa Sulis Minerva, e os romanos jogavam nela pedidos escritos em pequenas lâminas de chumbo ou peltre. Escavações em 1979 e 1980 recuperaram cerca de 130 dessas lâminas, dos séculos II a IV. Desde 2014 elas estão no registro britânico do programa Memória do Mundo da UNESCO.

A maioria pede de volta um objeto roubado, e muitas tratam de roupa levada enquanto o dono se banhava. Um certo Docimedis perdeu duas luvas e pediu que o ladrão perdesse a razão e os olhos no templo da deusa. Outro, Solinus, entregou à deusa a túnica de banho e o manto que lhe roubaram e pediu que o culpado não tivesse sono nem saúde até devolvê-los. Como a vítima quase nunca sabia quem tinha sido, as lâminas repetem uma fórmula que cobre qualquer suspeito: “seja homem ou mulher, seja escravo ou livre” (Wikipedia).

Água quente da Fonte Sagrada de Bath escorrendo por pedras tingidas de laranja pelo ferro, sob um arco de pedra das termas romanas

A água da Fonte Sagrada ainda corre pelas termas de Bath, tingida de laranja pelo ferro. Foto: -JvL-, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

Como as termas funcionavam no resto do Império está em Termas romanas: como funcionava o banho de Roma.

O que sobrou nas regras de hoje

Em todas essas tradições o banho era um lugar onde se ficava sem roupa, perto do fogo, com outras pessoas e longe da proteção de casa. As histórias deram nome aos riscos do lugar: passar mal sozinho no calor, brigar num espaço apertado, a sujeira que se acumula onde muita gente se lava, o furto da roupa deixada no banco. Quase toda regra que uma casa de banho publica hoje responde a um desses riscos.

TradiçãoCrençaRegra que vinha com elaEquivalente atual
BanyaO bannik ataca quem se banha sozinhoBanhar-se em grupoAvisar a equipe ou quem está ao lado ao passar mal no calor
BanyaO bannik castiga barulho e pragaSilêncio, nada de xingarSalas de silêncio e aviso para falar baixo
Sauna finlandesaO saunatonttu vigia a condutaCumprimentar ao entrar, portar-se como na igrejaPerguntar antes de jogar água nas pedras
Hammam no CairoGênios frequentam o banhoOração na entrada; valores entregues ao mestre do banhoArmário com chave na recepção
Banho japonêsO akaname come a sujeira do banhoManter o banho limpoLavar o corpo antes de entrar na água comum
Termas de BathA deusa pune quem rouba no banhoMaldição contra o ladrãoArmários e pulseira com chave

Duas tradições distantes chegaram à mesma ideia por caminhos diferentes. Na banya russa a cruz ficava do lado de fora, e no banho do Cairo não se recitava o Corão. Nos dois casos, o banho era tratado como um lugar à parte, com regras próprias, e quem entrava aceitava essas regras junto com o calor.

Próximo passo: leia O lado social da casa de banho para entender por que o banho sempre foi coletivo, ou abra o mapa Bathhouse para encontrar banyas, saunas, hammams e onsens abertos ao público.