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Termas romanas: como o banho de Roma funcionava de verdade

A história da casa de banho romana: balneum e thermae, o circuito que o banhista percorria, como o hipocausto aquecia o piso, quanto custava a entrada e por que os grandes complexos esvaziaram.

Cultura de banho 12 min de leitura

Roma não inventou o banho. Industrializou. No século IV a cidade tinha centenas de casas de banho, da sala única nos fundos de uma loja a complexos públicos maiores que um shopping center, e um cidadão usava uma delas por menos que uma taça de vinho.

O que torna o banho romano digno de estudo não é o tamanho. É que os romanos resolveram, em alvenaria e fogo, os mesmos problemas que uma casa de banho ainda tem hoje: como aquecer uma sala até uma temperatura utilizável, como conduzir as pessoas pelo quente e pelo frio numa ordem que funcione, como fazer entrar e sair água suficiente e como deixar tudo isso barato o bastante para que as pessoas voltem toda semana.

Quase tudo o que vem a seguir ainda é visível. Os pisos, as fornalhas e as telhas de tiragem sobreviveram em sítios suficientes para conferir os textos contra os prédios.

Balneum e thermae não são o mesmo prédio

O latim separa duas coisas que o português junta em “termas romanas”.

Um balneum (plural balneae) era uma casa de banho pequena. Em geral privada e tocada com fins lucrativos, ocupava um lote urbano comum, atendia um bairro e não exigia mais que uma fornalha, algumas salas aquecidas e um ponto de água. Eram os banhos ordinários, e existiam aos montes.

Thermae, do grego thermos, quente, era outra coisa: um complexo público monumental, quase sempre construído e pago por um imperador, que reunia as salas de banho com pátio de exercício, jardins, salas de leitura, bibliotecas e lojas. Um balneum era um negócio. As thermae eram obra pública.

Os catálogos regionários de Roma, do século IV, listam 11 thermae e cerca de 850 balnea na cidade. A proporção é a parte interessante: os complexos imperiais famosos eram raros, e a experiência cotidiana de banho acontecia numa salinha aquecida na esquina.

As primeiras grandes thermae públicas de Roma foram as de Agripa, no Campo de Marte, concluídas por volta de 25 a.C. e depois abastecidas pela Aqua Virgo, o aqueduto que ainda alimenta a Fontana di Trevi. Tudo o que vem de monumental depois é variação do mesmo gesto: uma comodidade privada convertida em infraestrutura civil.

O circuito que o banhista percorria

Não havia sequência única, e os autores romanos descrevem hábitos diferentes, mas a arquitetura da maioria dos complexos sugere um circuito reconhecível.

  1. Apodyterium. O vestiário, com nichos na parede para a roupa. O furto era frequente a ponto de o fur balnearius, o ladrão de banho, virar figura recorrente na comédia romana e nas tabuinhas de maldição.
  2. Palaestra. Um pátio aberto de exercício. Muita gente suava antes de entrar: jogo de bola, peso, luta.
  3. Óleo e raspagem. Sem sabão. O corpo era untado com azeite, e o azeite, o suor e a sujeira saíam raspados por um strigil, lâmina curva de bronze. A raspa caía no chão. Quem podia pagar tinha alguém para fazer isso.
  4. Tepidarium. Sala morna, aquecida sem castigar, onde o corpo se ajustava antes do calor forte.
  5. Caldarium. A sala quente, com uma banheira de água quente (alveus ou solium) numa ponta e uma bacia de água fria (labrum) para molhar o rosto. O piso podia ficar quente o suficiente para exigir sandália de madeira.
  6. Laconicum ou sudatorium. Câmara de suor seca e muito quente, menor e em geral abobadada.
  7. Frigidarium. O salão frio e, nos grandes complexos, o centro arquitetônico do prédio, muitas vezes com bacias de imersão gelada.
  8. Natatio. Nas thermae imperiais, uma grande piscina a céu aberto, sem cobertura e sem aquecimento.

Quente, depois frio, depois descanso e conversa. Quem já fez um circuito de sauna reconhece o desenho.

O hipocausto transformava o piso num aquecedor

O núcleo técnico do banho romano é o hipocausto. O piso da sala aquecida era erguido sobre pilaretes de telha empilhada, as pilae, em geral de 60 a 70 centímetros de altura, deixando um vazio embaixo. Uma fornalha, o praefurnium, queimava logo ali fora, e seus gases quentes se espalhavam por esse vazio, aquecendo a laje por baixo.

A segunda metade do sistema importa tanto quanto e é menos lembrada. Telhas ocas em forma de caixa, os tubuli, ficavam embutidas nas paredes atrás do reboco, ligadas ao vazio do piso. O gás quente subia pelas paredes e saía perto da cobertura. O resultado era uma sala aquecida por cinco superfícies, e não por uma, que é como um caldarium mantinha temperatura num prédio de pedra sem isolamento.

Plínio, o Velho, credita a Sérgio Orata a invenção dos balneae pensiles, os banhos suspensos, no século I a.C. O que exatamente Orata inventou ainda é discutido, já que pisos aquecidos aparecem antes em contextos gregos, mas a conquista romana foi tornar o sistema rotineiro, padronizado nos tamanhos de telha e repetível por construtores comuns em todo o império.

A conta vinha no combustível. Um complexo grande queimava lenha sem parar, e o suprimento, a estocagem e a alimentação do fogo eram uma operação permanente rodando por baixo de um prédio em que a maioria dos banhistas nunca pensava. A equipe da fornalha trabalhava num corredor de serviço abaixo e atrás das salas, fora de vista.

O que Vitrúvio mandava o construtor fazer

Escrevendo na década de 20 a.C., Vitrúvio dedicou parte do Livro V do De architectura ao projeto de banhos. As instruções são de uma praticidade impressionante, e várias continuam sendo a resposta certa.

  • Orientação. Ponha o banho num sítio quente, abrigado do norte e do nordeste, e ilumine as salas quentes e mornas pelo poente de inverno. O motivo é de agenda: as pessoas se banham do meio-dia ao anoitecer, então o prédio deve pegar o sol da tarde.
  • Fornalha compartilhada. Coloque as salas quentes de homens e de mulheres lado a lado e voltadas para o mesmo lado, para que uma fornalha e um conjunto de caldeiras sirvam às duas.
  • Três caldeiras em série. Uma quente, uma morna e uma fria sobre um único fogo, arranjadas de modo que a água tirada da quente seja reposta pela morna, e a morna pela fria. É um circuito de pré-aquecimento em contracorrente, feito em bronze.
  • Piso de hipocausto em declive. Assente a primeira camada de telhas inclinada na direção da fornalha, diz ele, de modo que uma bola jogada ali role de volta para a boca do forno. Esse declive puxa a chama para mais longe sob o piso.
  • Abóbada dupla nas salas quentes. Abobade duas vezes, com um vão entre as cascas, para que o vapor condense entre elas em vez de encharcar a estrutura de cima.
  • Um controle de temperatura. No laconicum abobadado, pendure um disco de bronze por correntes sob a abertura do topo. Suba ou desça o disco para mudar quanto calor escapa.

Esse último merece um minuto. Os romanos não tinham termostato, então construíram um buraco regulável no teto. Todo item dessa lista ainda é uma linha de orçamento de casa de banho: implantação, central compartilhada, recuperação de calor, caminho da combustão, controle de vapor, controle de temperatura. A tecnologia mudou. A lista não.

Quanto custava o banho, e quem estava na sala

A entrada era de propósito irrisória. O valor citado na literatura romana é um quadrans, a menor moeda de bronze em circulação, um quarto de um as. Crianças com frequência não pagavam, e um magistrado ou imperador em campanha de popularidade podia bancar a entrada franca por um período.

Uma rara tabela de preços sobrevivente deixa isso concreto. O regulamento mineiro romano de Vipasca, no que hoje é Portugal, estabelece os termos do concessionário que operava o banho do povoado: fixa quanto homens e mulheres pagam, exige água quente do amanhecer até a sétima hora para as mulheres e dali até a segunda hora da noite para os homens, e responsabiliza o concessionário pela manutenção. É um contrato de serviço público, e se lê como tal.

Para saber como era a sala de fato, a melhor fonte é uma reclamação. Na Carta 56, Sêneca descreve morar exatamente acima de um balneum e lista os ruídos: os homens levantando peso e grunhindo, alguém sendo esfregado pelo massagista, os jogadores de bola cantando o placar em voz alta, um brigão, um ladrão flagrado, o sujeito que gosta da própria voz na piscina e o depilador de axila, cujos clientes gritam. Depois o vendedor de bebida, o de linguiça e o de doce, cada um com seu pregão.

Isso não é um templo de bem-estar. É um prédio público barulhento e cheio, onde se fazia negócio, se comia, se fofocava e se tomava banho, e o barulho é a evidência mais forte que temos de quanto aquilo era central na vida diária.

O banho misto existia e era polêmico. Muitos estabelecimentos separavam os sexos construindo duas alas ou dividindo o dia em horário feminino e masculino, como em Vipasca. A Historia Augusta relata que Adriano proibiu o banho misto, o que nos diz duas coisas: que acontecia, e que os imperadores periodicamente decidiam que não deveria.

A escala das thermae imperiais

ComplexoDedicaçãoO que trouxe de novoMarcador de escala
Termas de Agripa, Romac. 25 a.C.As primeiras grandes thermae públicas da cidadeLigadas a um aqueduto próprio, a Aqua Virgo
Termas Stabianas, PompeiaNúcleo do século II a.C.O balneum de bairro comumAlas separadas para homens e mulheres, hipocausto intacto
Termas de Trajano, Roma109 d.C.A planta imperial simétrica que todo complexo posterior copiouErguidas sobre a Domus Aurea de Nero, já soterrada
Termas de Caracala, Roma216 d.C.Jardins, bibliotecas e abóbadas em escala arquitetônicaCúpula do caldarium com cerca de 35 metros de vão
Termas de Diocleciano, Romac. 306 d.C.O maior complexo que Roma construiuO frigidarium é hoje a nave de uma basílica

Os números de capacidade desses prédios circulam muito e são estimativas modernas, reconstruídas a partir de área de piso e de banco, não contadas por ninguém na época. Trate como ordem de grandeza.

Os números sólidos de Caracala vêm da própria construção. Selos de tijolo que ainda trazem o nome de Geta, apagado em todo o resto depois do assassinato dele, datam o início da obra em 211 ou 212, e a dedicação está registrada em 216, um ano antes da morte de Caracala. A cúpula do caldarium vencia cerca de 35 metros. Dois dos seus oito pilares continuam de pé.

O que os romanos não tinham

Um relato honesto do banho romano precisa incluir a distância entre a engenharia e a higiene.

  • Sem sabão para lavar. Plínio menciona o sapo, que descreve como produto gaulês usado no cabelo. A limpeza do corpo era azeite e strigil.
  • Sem filtragem, sem desinfecção. A água do aqueduto entrava sem parar e saía pelos drenos, e esse fluxo era toda a estratégia de tratamento. Numa piscina de caldarium movimentada, não bastava. Autores médicos romanos desaconselhavam levar ferida aberta ao banho, o que sugere que o problema era percebido.
  • Sem medição. Não havia termômetro nem como ler umidade. O banho rodava no julgamento da equipe da fornalha e no disco de bronze da cúpula.
  • Sem ventilação mecânica. O ar se movia porque o calor se move. Onde não se movia, a sala ficava ruim e a estrutura sofria, e é por isso que Vitrúvio se dá ao trabalho de especificar abóbada dupla.

Os equivalentes modernos dessas quatro lacunas, tratamento de água, instrumentação, ventilação e o código sanitário que rege tudo isso, são boa parte do que uma casa de banho custa para construir hoje. Roma chegou a resultados extraordinários sem eles, e pagou por isso de maneiras que as fontes só registram de lado.

Por que as thermae esvaziaram, e o que sobreviveu

Os grandes complexos não caíram de moda. Perderam a água.

As thermae dependiam inteiramente de aquedutos. Em 537 d.C., durante a guerra gótica, os sitiantes cortaram os aquedutos que entravam em Roma. Procópio registra o episódio, e a arqueologia concorda: os banhos monumentais da cidade não se recuperaram. Sem abastecimento por gravidade naquele volume, um prédio desenhado em torno de piscinas de fluxo contínuo vira apenas uma sala fria enorme. A população de Roma já havia despencado, e a base fiscal que pagava a lenha foi junto.

A prática, no entanto, não morreu. Mudou de lugar. A sequência de salas aquecidas, o piso suspenso, a fornalha na ponta do prédio e a progressão de morno a quente a frio passaram para o banho bizantino e dali para o hammam, que manteve a estrutura essencial e mudou as regras sociais em volta dela. Nas províncias romanas, os prédios seguiram em uso ou foram reocupados. Em Bath, na Inglaterra, a fonte que os romanos cercaram como Aquae Sulis nunca parou de correr.

O que uma casa de banho de hoje deve a Roma não é o mármore. É o circuito: a ideia de que quente, depois frio, depois descanso, feito na companhia de outras pessoas, num prédio que também é lugar de sentar e conversar, vale uma obra de infraestrutura séria. Essa ideia tem uns dois mil anos e nunca foi muito melhorada.

Próximo passo: leia Bathhouse, spa, recovery e termas: o que muda entre os espaços de banho para ver onde o formato romano se encaixa entre os de hoje, ou abra o glossário do Bathhouse com os termos usados nessas tradições.