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As primeiras saunas do Brasil nasceram em Penedo

Em 1929, imigrantes finlandeses construíram as primeiras saunas do país entre Itatiaia e Penedo. A história começa num curral e mostra a sauna comunitária como origem do banho social no Brasil.

Banho social · atualizado em 8 min de leitura

Antes do hotel, do spa e da academia

A sauna chegou ao Brasil como parte de uma casa que ainda estava sendo construída. Em 1929, os finlandeses que fundaram a colônia de Penedo, no atual município de Itatiaia (RJ), na época parte de Resende, improvisaram uma cabine perto do casarão da antiga fazenda. Aqueceram pedras, jogaram água sobre elas e repetiram nos trópicos um banho que fazia parte da vida cotidiana na Finlândia.

Essa construção é apontada como a primeira sauna do Brasil. A afirmação aparece em relatos locais, pesquisas acadêmicas e na história preservada pela comunidade finlandesa de Penedo. Há, porém, um detalhe de endereço: uma sauna anterior pode ter funcionado durante a passagem dos imigrantes por uma pensão em Itatiaia, antes de o grupo se instalar definitivamente na Fazenda Penedo.

Em vez de procurar uma única cabine inaugural, que já não existe, faz mais sentido falar nas primeiras saunas brasileiras. Elas surgiram no mesmo núcleo de imigrantes e no mesmo ano. Eram lugares de banho e convívio, não equipamentos de lazer anexados a uma piscina.

Duas saunas no começo da colônia

A história reunida pelo PenedoTrip separa os dois momentos. Nos primeiros meses no Brasil, ainda hospedado na Pensão dos Walter, em Itatiaia, o grupo teria construído a primeira sauna. Depois da compra da Fazenda Penedo, os colonos fizeram outra perto do casarão e do Rio das Pedras. Timo Aaltonen, em Sauna finlandesa (Edicon, 3ª edição, 2015), dá as datas: os primeiros finlandeses se instalaram na fazenda em 7 de dezembro de 1928, logo depois de assinada a promessa de compra e venda, e a compra foi registrada em cartório no Rio de Janeiro em 28 de janeiro de 1929. Um pequeno curral teria servido de ponto de partida para a estrutura.

Fotografia em preto e branco de 1929 com dezenas de colonos finlandeses reunidos no andar de cima do casarão da fazenda de Penedo

Os colonos finlandeses no casarão da Fazenda Penedo, em 1929, o ano das primeiras saunas. Foto: autor desconhecido, domínio público, via Wikimedia Commons.

É essa segunda cabine que costuma aparecer em reportagens como a primeira sauna do país. O Antagonista conta que ela foi levantada no primeiro ano da colônia, antes mesmo de as casas ficarem prontas. A cronologia mostra o lugar que a sauna ocupava na vida finlandesa, como parte da infraestrutura básica da comunidade, e não como um luxo a instalar quando sobrasse dinheiro.

Não existe um registro nacional que permita provar que nenhuma outra forma de banho de calor funcionava no Brasil antes disso. O marco de Penedo é mais específico: trata-se da introdução documentada da sauna finlandesa, com pedras aquecidas e água para produzir vapor. Chamar a cabine de 1929 de “primeira sauna” não equivale a estabelecer o começo de todas as práticas de banho no território brasileiro.

MomentoLocalO que se sabe
Primeiros meses dos imigrantesPensão dos Walter, ItatiaiaO PenedoTrip registra uma sauna construída antes da instalação definitiva na fazenda
Ainda em 1929Perto do casarão da Fazenda PenedoSauna comunitária feita junto ao rio, tradicionalmente apontada como a primeira do Brasil
Anos seguintesCasas e pensões da colôniaNovas saunas substituíram a primeira e passaram a receber moradores e visitantes

Como era tomar sauna em Penedo

A primeira construção da fazenda provavelmente era de madeira e durou cerca de cinco anos. A dissertação do arquiteto e pesquisador Sergio Moraes Rego Fagerlande, A utopia e a formação urbana de Penedo, recompõe a rotina a partir de depoimentos e álbuns de famílias pioneiras.

O banho acontecia aos sábados, por volta das cinco da tarde. Mulheres e homens usavam a sauna em horários separados. Aaltonen descreve o mesmo costume no Hotel Bertell, onde se tomava sauna às quintas e aos sábados: às 15h era o turno das mulheres e às 17h, o dos homens. Os banhistas saíam enrolados numa toalha, de tamancos de caixeta, e mergulhavam no ribeirão. No lugar da vihta de bétula, o feixe de galhos usado na Finlândia, a colônia adotou ramos de eucalipto, preparados na manhã do banho. Quando a primeira cabine deixou de funcionar, outras tomaram seu lugar, entre elas as saunas das famílias Suni, Asikainen e Bertell. Uma foi construída com pedras do rio. Fotografias preservadas mostram que o banho se estendia para fora da cabine, junto à água e às árvores, com grupos reunidos para comer e conversar.

Esse uso está próximo do sentido finlandês de sauna. O ponto central é o löyly, o vapor que sobe quando a água encontra as pedras quentes. A cabine importa, mas o ritual também inclui lavar o corpo, esfriar-se e passar tempo com outras pessoas. Em 2020, a UNESCO reconheceu a cultura da sauna na Finlândia como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento é da prática finlandesa, não da construção de Penedo, mas ajuda a entender o que os imigrantes trouxeram consigo.

Da colônia agrícola ao destino de banho

Toivo e Liisa Uuskallio fundaram Penedo como uma comunidade vegetariana e naturalista. Segundo a Embaixada da Finlândia no Brasil, 139 finlandeses se estabeleceram ali, embora muitos tenham voltado para seu país ainda no primeiro ano. O plano era viver da agricultura. Doenças nas plantas, falta de experiência e dificuldade para vender a produção enfraqueceram o projeto.

As casas então começaram a receber hóspedes. O casarão virou hotel em 1932, e famílias como Uuskallio, Reiman e Bertell abriram pensões. O clima mais fresco, os rios e os hábitos dos imigrantes atraíam visitantes do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A sauna passou da rotina dos moradores para a experiência oferecida ao viajante. Um artigo de Fagerlande no Caderno Virtual de Turismo identifica o banho finlandês como uma das primeiras atrações de Penedo. A própria construção do destino aconteceu ao redor dessa combinação: natureza preservada, hospedagem familiar e costumes que ainda eram pouco conhecidos no Brasil.

Segundo esses relatos, a sauna se espalhou sobretudo a partir das pousadas, dos hotéis e das casas particulares que aprenderam o formato com os pioneiros. Houve também saunas públicas, em pequeno número. Aaltonen registra uma em Penedo, aberta por Mauno Jordan e seus filhos na Avenida das Mangueiras, frequentada por turistas e por moradores do Vale do Paraíba e hoje desaparecida. No Rio de Janeiro, Martti Aaltonen e Igor Gagarin fundaram no início dos anos 1960 a Saunalar, que fabricava fornos de sauna elétricos e a lenha e instalou duas saunas públicas, uma em Copacabana e outra na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. A Embaixada da Finlândia registra que descendentes da colônia também trabalharam com a fabricação de fornos de sauna. Quando academias, clubes e condomínios brasileiros adotaram a cabine décadas depois, o banho já havia saído de Penedo sem carregar sempre a história de sua origem.

O que sobrevive em Penedo

A cabine de 1929 já não existe, e não se conhecem vestígios materiais dela. A herança aparece em outros lugares:

  • O Museu Finlandês Eva Hildén reúne objetos, fotografias e documentos das famílias pioneiras.
  • O Clube Finlândia, fundado em 1943, mantém danças e encontros ligados à comunidade.
  • Hotéis e pousadas locais ainda oferecem sauna seca, embora sejam instalações atuais, não as cabines originais.
  • O Rio das Pedras e as cachoeiras do entorno preservam a relação entre calor, água fria e natureza que marcou os primeiros banhos.

Quem visita Penedo em busca dessa história encontra, na Pequena Finlândia e na Casa do Papai Noel, atrações turísticas construídas muitas décadas depois. O acervo da colônia de 1929 está no museu. Para tomar sauna, confirme antes com a hospedagem se a cabine é seca, se permite água sobre as pedras e se o uso está incluído na diária. Nem toda sauna anunciada como “finlandesa” oferece löyly.

Rua de pedestres da Pequena Finlândia, em Penedo, coberta por guarda-chuvas coloridos suspensos

A Pequena Finlândia de hoje: atração construída décadas depois da colônia, sem as cabines originais. Foto: Rômulo Gama Ferreira, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

Por que essa história importa

A primeira sauna brasileira não nasceu como tratamento de spa nem como complemento de academia. Ela era um lugar comunitário onde se tomava banho, regulava-se o corpo entre calor e água fresca e encerrava-se a semana. Só depois virou atração turística e comodidade de hotel.

Essa ordem situa a origem do banho social no Brasil na sauna comunitária da colônia: uma cabine usada por vários moradores, em turnos, com a conversa que seguia o banho. A cabine resolve a parte térmica; a sauna de Penedo tinha, além dela, um ritual conhecido por quem a usava, água fria para se refrescar e tempo para ficar. Foi com esse conjunto que os finlandeses começaram em 1929.

Próximo passo: leia as diferenças entre bathhouse, spa, recovery, sauna e termas ou abra o mapa Bathhouse para encontrar espaços de banho no Brasil.